Há coisas que simplesmente foram feitas para acontecer. Muitas vezes são malucas e tortas e erradas e dão um monte de problemas mas a gente sabe, de algum jeito, que tem que ser assim.
Há coisas que não.
Começou quando eu esbarrei na caixinha de costura e espalhei linhas de todas as cores no chão. Todas as cores de linhas e eu ali, juntando uma por uma pra guardar de volta na caixinha porque, por mais bonitas que elas ficassem espalhadas no chão, não era esse seu lugar.
Eu passei minha vida inteira correndo de tudo que pudesse significar que eu estava presa. Eu nunca quis morrer na cidade onde nasci, nunca quis uma casa lá, nunca quis me apegar demais a nada que pudesse me reter àquele lugar. E precisei atravessar oceanos inteiros das minhas dúvidas e medos e convicções para me dar conta de que, afinal, eu pertenço a tudo isso.
Minha maldita mania de sagitariana de querer aventura me faz inventar coisas. Costumava ser saudável e todo mundo elogiava e olha só como ela tem tanta coragem, mas acho que esqueci como canalizar minha energia criativa para o que realmente é útil e foi assim que eu acabei derrubando a caixinha de costura no chão.
Uns dias antes eu acordei vomitando tudo o que tinha no estômago e no coração e na alma. Tem coisas que meu corpo expulsa contra a minha vontade mas no fim eu agradeço, ainda que me sinta tão vazia e sozinha e juntando linhas do chão. Seis horas e meia de exames e fotos internas disformes acabaram com uma médica simpática me explicando que finalmente eu consegui: estou doente de tanto pensar. Mas é isso, toma esse remedinho aqui pra tirar tua ansiedade e tenta não ficar tão nervosa.
Acontece que eu nem fiz vinte e três anos ainda porque meu aniversário é só no fim do ano e eu me deprimo tanto quando ele chega, como é que vou ficar tomando remédio pra poder achar tudo menos feio? Eu nasci na primavera - tudo bem, era quase verão, mas isso não deveria me dar um pouco de cor e de perfume e de leveza?
Claro que eu enlouqueci. Tive uma crise de choro sem precedentes, embora todas as minhas crises de choro sejam sem precedentes, quis quebrar copos e janelas e corações e deixar tudo pra trás pra arrumarem sem mim, quem sabe assim dava pra perceber como é solitário isso de ficar juntando pedaços o tempo todo. Lembrei das crises de falta de ar e do pânico e só de pensar já me deu vertigem. Eu não quero isso mais. Eu não vou mais me matar voluntariamente e em doses homeopáticas.
Não é minha culpa que, aos vinte e poucos, haja vidas já tão cheias de passados que não admitem presentes. Não é minha culpa e eu não posso assumir consequências de tragédias alheias.
Eu não sinto ódio, não sou indiferente, não vou me matar de tristeza. Pelo contrário. Eu agradeço porque me deram muito, porque eu devo muito, porque eu tive sim com quem contar, porque eu não me arrependo. Mas tem horas que é melhor deixar que tudo siga seu curso sem interferir, sem forçar situações, sem enlouquecer.
Se eu tenho que passar por cima de tudo o que defendi e acreditei a vida inteira para isso, tudo bem. Se eu tenho que retroceder e guardar as linhas coloridas para quando elas forem realmente úteis, não faz mal. Também é muito meu isso de assumir minhas besteiras. Também vou sobreviver a isso. As minhas consequências, ainda que me quebrem e me machuquem e me forcem a encarar coisas desagradáveis, eu estou preparada para aguentar. Desde que sejam minhas, desde que sejam obra das minhas decisões. Os pesos alheios eu sinto muito, mas não posso carregar.
Há coisas que simplesmente foram feitas para acontecer. Há coisas que não. E, mesmo que seja triste e chato e complicado, ninguém nunca morreu por engolir as próprias certezas.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Quase verdades
"Uma verdade dita com má intenção bate todas as mentiras que se possa inventar."
-William Blake
Eu minto mesmo. Muitas vezes sobre coisas pequenas; aumento uma frase, uma expressão, digo que disse algo que na verdade só pensei em dizer depois, invento uma situação, melhoro os fatos, torno as coisas mais divertidas do que foram.
Essas mentiras despropositais, e espontâneas tornam minha vida mais leve e minha história mais interessante. Eu fiz amizade com as minhas mentirinhas insuspeitas e convivemos bem assim, completando com imaginação as lacunas que as verdades deixam pra trás. Porque não existem meias verdades (maldito hífen que eu nunca mais soube onde usar). Verdades são concretas e inteiras, imutáveis. Já o que não aconteceu tem muitas caras, poderia ter sido de um zilhão de jeitos diferentes e isso, quando usado pela gente certa, é mais divertido que a verdade pura e simples. Mentir, no meu caso, é um ato de compulsão sem culpas, uma automação das coisas que eu tenho pra contar, que não prejudica ninguém e me ajuda a engolir minhas verdades sem precisar de tanto sal de fruta.
Mas eu também aprendi a mentir de um jeito mais fundo. Minto quando sei que a verdade não vale o sofrimento que vai causar. Minto pra proteger pessoas de verdades que nada acrescentariam às suas vidas, que vão trazer choro e desespero e, no fim, vão apenas virar uma ferida que não sara. Minto porque acho que o mundo precisa de um pouco de compaixão e as pessoas precisam de muita evolução, ainda, pra aprenderem a conviver com a verdade crua. Minto porque muitas vezes sei que a verdade não vai resolver problemas, ou porque sei que vai causá-los, ou porque acho que alguém só precisa de um abraço e alguém que diga que o universo não é tão feio quanto parece.
A verdade não aplaca o sofrimento, a verdade não melhora os fatos, a verdade não cura dor nenhuma, apenas mostra coisas que nem sempre estamos preparados para enxergar. A verdade, quando não é vital para determinado assunto, deve ser maquiada. Mentiras ditas com bom coração são quase verdades.
Eu minto mesmo. E não me acho merecedora do inferno por isso. Eu acho que ser uma boa pessoa também passa por saber mentir.
-William Blake
Eu minto mesmo. Muitas vezes sobre coisas pequenas; aumento uma frase, uma expressão, digo que disse algo que na verdade só pensei em dizer depois, invento uma situação, melhoro os fatos, torno as coisas mais divertidas do que foram.
Essas mentiras despropositais, e espontâneas tornam minha vida mais leve e minha história mais interessante. Eu fiz amizade com as minhas mentirinhas insuspeitas e convivemos bem assim, completando com imaginação as lacunas que as verdades deixam pra trás. Porque não existem meias verdades (maldito hífen que eu nunca mais soube onde usar). Verdades são concretas e inteiras, imutáveis. Já o que não aconteceu tem muitas caras, poderia ter sido de um zilhão de jeitos diferentes e isso, quando usado pela gente certa, é mais divertido que a verdade pura e simples. Mentir, no meu caso, é um ato de compulsão sem culpas, uma automação das coisas que eu tenho pra contar, que não prejudica ninguém e me ajuda a engolir minhas verdades sem precisar de tanto sal de fruta.
Mas eu também aprendi a mentir de um jeito mais fundo. Minto quando sei que a verdade não vale o sofrimento que vai causar. Minto pra proteger pessoas de verdades que nada acrescentariam às suas vidas, que vão trazer choro e desespero e, no fim, vão apenas virar uma ferida que não sara. Minto porque acho que o mundo precisa de um pouco de compaixão e as pessoas precisam de muita evolução, ainda, pra aprenderem a conviver com a verdade crua. Minto porque muitas vezes sei que a verdade não vai resolver problemas, ou porque sei que vai causá-los, ou porque acho que alguém só precisa de um abraço e alguém que diga que o universo não é tão feio quanto parece.
A verdade não aplaca o sofrimento, a verdade não melhora os fatos, a verdade não cura dor nenhuma, apenas mostra coisas que nem sempre estamos preparados para enxergar. A verdade, quando não é vital para determinado assunto, deve ser maquiada. Mentiras ditas com bom coração são quase verdades.
Eu minto mesmo. E não me acho merecedora do inferno por isso. Eu acho que ser uma boa pessoa também passa por saber mentir.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Os meus
Por quem você está nesse mundo?
Não, não estou falando de almas gêmeas ou pessoas que "precisamos encontrar", embora essas sejam forças poderosas de ligação que eu não desprezo; falo de pessoas por quem você morreria, ou mataria, se necessário.
É claro que, como sagitariana com ascendente em sagitário, tendo a exagerar um pouco as coisas mas, sério, há que existir ao menos uma alma na Terra por quem viver... não?
Descobrir por quem você está não é tarefa fácil, mas é muito importante. "De que lado você samba?" - dizia a canção. Embora haja uma porção de almas pelas quais vale a pena lutar, milhões precisando de uma voz que fale por elas, cada um de nós só tem uma vida por vez e, a menos que você seja um espírito evoluído como Gandhi, é melhor ir selecionando seu próprio batalhão de protegidos.
Escolhi, por mérito, chamar de "meus" todos aqueles por quem compro briga, por quem ponho a mão no fogo, por quem falo em público, por quem continuo escrevendo, todos aqueles de quem me permito sentir saudade, todos aqueles por quem eu suportaria uma perpétua, uma tortura, ou mais.
Eu estou nesse mundo pelos meus. Sigo meus caminhos tortos, nem sempre próxima dessas almas tão especiais para mim, mas estou incontestavelmente por elas. Dentre as centenas de almas que cruzam uma vida, muitas dezenas são merecedoras das vagas desse exército, mas é preciso escolher um grupo.
Não há números exatos, cada um divide o coração que tem. Pode ser uma pessoa ou uma centena delas. Pode ser o amor da sua vida ou seus pais. Podem ser amigos da vida toda ou um que você acabou de conhecer.
Apenas decida quem são os "seus" - e esteja por eles. Incansavelmente por eles. Escolha as almas que fazem essa confusão toda continuar valendo a pena.
Não, não estou falando de almas gêmeas ou pessoas que "precisamos encontrar", embora essas sejam forças poderosas de ligação que eu não desprezo; falo de pessoas por quem você morreria, ou mataria, se necessário.
É claro que, como sagitariana com ascendente em sagitário, tendo a exagerar um pouco as coisas mas, sério, há que existir ao menos uma alma na Terra por quem viver... não?
Descobrir por quem você está não é tarefa fácil, mas é muito importante. "De que lado você samba?" - dizia a canção. Embora haja uma porção de almas pelas quais vale a pena lutar, milhões precisando de uma voz que fale por elas, cada um de nós só tem uma vida por vez e, a menos que você seja um espírito evoluído como Gandhi, é melhor ir selecionando seu próprio batalhão de protegidos.
Escolhi, por mérito, chamar de "meus" todos aqueles por quem compro briga, por quem ponho a mão no fogo, por quem falo em público, por quem continuo escrevendo, todos aqueles de quem me permito sentir saudade, todos aqueles por quem eu suportaria uma perpétua, uma tortura, ou mais.
Eu estou nesse mundo pelos meus. Sigo meus caminhos tortos, nem sempre próxima dessas almas tão especiais para mim, mas estou incontestavelmente por elas. Dentre as centenas de almas que cruzam uma vida, muitas dezenas são merecedoras das vagas desse exército, mas é preciso escolher um grupo.
Não há números exatos, cada um divide o coração que tem. Pode ser uma pessoa ou uma centena delas. Pode ser o amor da sua vida ou seus pais. Podem ser amigos da vida toda ou um que você acabou de conhecer.
Apenas decida quem são os "seus" - e esteja por eles. Incansavelmente por eles. Escolha as almas que fazem essa confusão toda continuar valendo a pena.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Quase amor
Eu admiro quem diz "te amo".
E não falo de amor de amigos ou família. Falo de amor desse besta mesmo.
Eu vivo dizendo "te amo" pros meus irmãos, meus pais, primos, tios, avós... falo assim mesmo, no meio do dia, sem motivo aparente, só pra lembrar que, embora a genética tenha me programado para isso, eu também amo por voluntariedade, porque construímos laços irrompíveis ao longo dos anos e acho isso uma coisa muito especial, muito digna e merecedora de lembretes sem motivo aparente.
Também digo "te amo" pros meus amigos com frequência, pra lembrar que, embora eu não tenha sido geneticamente programada para amá-los, algo mais forte que o parentesco sanguíneo nos uniu e isso também é uma coisa especial que merece ser destacada.
Mas admiro quem diz "te amo" pra pessoa que está ali ao lado, passando por coisas junto de você. Admiro porque eu não sei fazer.
Talvez porque o amor romântico seja muito idealizado como uma coisa que queima mesmo, e dói e enlouquece e tira o chão - e essas não são coisas que acontecem todo o tempo, pelo menos não comigo. Essas são coisas que costumavam me acontecer aos quinze anos, quando todo rostinho bonito que eu encontrava era o grande amor da minha vida.
Depois o mundo ficou feio, as pessoas deixaram de ser de confiança e o amor que eu sentia por cada nova possibilidade morreu. E eu fiquei assim, livre, esperta, decidida e profundamente atolada na desculpa de que o mundo não entende minhas boas intenções.
Acho mesmo incrível que alguém ainda consiga olhar nos olhos e dizer algo assim. Quem consegue entregar seu mundo com essa certeza, com essa pureza, com essa leveza, com essa graça, merece ser amado de volta. Quem consegue espalhar "estamos juntos" sem o medo de que amanhã um dos dois pode sumir e deixar o outro com todas as coisas pra arrumar sozinho, quem ainda consegue ser assim mesmo com essa loucura toda merece sentir amor.
Pra mim é complicado. Tenho pânico de gastar amor com coisas voláteis como são os relacionamentos. Tenho pânico dos finais e, por isso, sempre acabo eu mesma com tudo antes que acabem comigo. Eu estrago tudo sempre, pra me sentir mais completa e corajosa e capaz.
Mas nem é que eu não goste dele, veja bem... eu gosto muito de respirar bem atrás da sua orelha, onde ele nem ouve nem deixa de ouvir e onde o resto de perfume do dia se encontra com o pedaço de brinco e deixa um cheiro inteiro seu. Eu gosto de falar, falar, falar e depois ouvir seu "hm" como resposta, só pra cutucar sua perna dizendo "me dá atenção" e ver como ele ri. Eu gosto de ver seu desespero quando digo que vou fazer alguma coisa na cozinha e da maneira delicada com que ele rejeita a oferta, propondo-se a fazer ele mesmo. Eu gosto de ser sarcástica e ver como ele fica tentando acompanhar minha mente doente pra entender o que fez de errado dessa vez, mesmo quando sabe que não fez nada. Eu gosto do jeito que ele sorri, do jeito cuidadoso com que se veste, da atenção que dá ao aquário, ao bonsai, à colcha da cama.
Eu gosto de sentir sua mão na minha cintura pra eu sair do caminho. Eu gosto do pedaço de barriga que ele deixa aparecer quando deita. Eu gosto que ele pega na minha mão porque tá muito quente pra ficar abraçado. Eu gosto da sua mão. Eu gosto quando pergunto alguma coisa e ele move o mundo - e o Google - pra me responder minuciosamente. Eu gosto da paciência que ele tem pra me esperar escolher roupa e da pressa repentina que ele tem pra gente não perder o trem. Eu gosto de falar dele pra minha mãe, eu gosto de falar com a mãe dele. Eu gosto dos pais dele. Eu gosto do seu companheirismo, da sua companhia, do seu apoio silencioso, do seu beijo de manhã - e à noite, e à tarde - eu gosto do seu beijo, enfim. Eu gosto de imaginar como as coisas serão daqui pra frente, já que resolvi ficar com ele do meu lado. Eu gosto dele um monte, saca? Eu acho que a gente tem uma coisa legal - e até o amo por estar comigo assim tão na paz, sem reclamar das minhas loucuras como todo mundo, sem me mandar ficar quieta, sem me chamar de desequilibrada nem nada, que são coisas com as quais me acostumei.
Mas dizer "te amo", ainda que eu ame muitas coisas nele e mais coisas ainda em nós, - como tudo nosso pra mim é muito palpável, como não me enlouquece nem tira meu chão, como eu planejo ficar muito tempo com ele e esse amor de que falam não admite planejamento porque muda de ideia muito rápido - talvez porque o que eu sinto é muito inteiro e real, dizer "te amo", pra mim, seria estragar tudo. Dizer "te amo", pra mim, ainda é coisa pra quem sabe fazer.
E não falo de amor de amigos ou família. Falo de amor desse besta mesmo.
Eu vivo dizendo "te amo" pros meus irmãos, meus pais, primos, tios, avós... falo assim mesmo, no meio do dia, sem motivo aparente, só pra lembrar que, embora a genética tenha me programado para isso, eu também amo por voluntariedade, porque construímos laços irrompíveis ao longo dos anos e acho isso uma coisa muito especial, muito digna e merecedora de lembretes sem motivo aparente.
Também digo "te amo" pros meus amigos com frequência, pra lembrar que, embora eu não tenha sido geneticamente programada para amá-los, algo mais forte que o parentesco sanguíneo nos uniu e isso também é uma coisa especial que merece ser destacada.
Mas admiro quem diz "te amo" pra pessoa que está ali ao lado, passando por coisas junto de você. Admiro porque eu não sei fazer.
Talvez porque o amor romântico seja muito idealizado como uma coisa que queima mesmo, e dói e enlouquece e tira o chão - e essas não são coisas que acontecem todo o tempo, pelo menos não comigo. Essas são coisas que costumavam me acontecer aos quinze anos, quando todo rostinho bonito que eu encontrava era o grande amor da minha vida.
Depois o mundo ficou feio, as pessoas deixaram de ser de confiança e o amor que eu sentia por cada nova possibilidade morreu. E eu fiquei assim, livre, esperta, decidida e profundamente atolada na desculpa de que o mundo não entende minhas boas intenções.
Acho mesmo incrível que alguém ainda consiga olhar nos olhos e dizer algo assim. Quem consegue entregar seu mundo com essa certeza, com essa pureza, com essa leveza, com essa graça, merece ser amado de volta. Quem consegue espalhar "estamos juntos" sem o medo de que amanhã um dos dois pode sumir e deixar o outro com todas as coisas pra arrumar sozinho, quem ainda consegue ser assim mesmo com essa loucura toda merece sentir amor.
Pra mim é complicado. Tenho pânico de gastar amor com coisas voláteis como são os relacionamentos. Tenho pânico dos finais e, por isso, sempre acabo eu mesma com tudo antes que acabem comigo. Eu estrago tudo sempre, pra me sentir mais completa e corajosa e capaz.
Mas nem é que eu não goste dele, veja bem... eu gosto muito de respirar bem atrás da sua orelha, onde ele nem ouve nem deixa de ouvir e onde o resto de perfume do dia se encontra com o pedaço de brinco e deixa um cheiro inteiro seu. Eu gosto de falar, falar, falar e depois ouvir seu "hm" como resposta, só pra cutucar sua perna dizendo "me dá atenção" e ver como ele ri. Eu gosto de ver seu desespero quando digo que vou fazer alguma coisa na cozinha e da maneira delicada com que ele rejeita a oferta, propondo-se a fazer ele mesmo. Eu gosto de ser sarcástica e ver como ele fica tentando acompanhar minha mente doente pra entender o que fez de errado dessa vez, mesmo quando sabe que não fez nada. Eu gosto do jeito que ele sorri, do jeito cuidadoso com que se veste, da atenção que dá ao aquário, ao bonsai, à colcha da cama.
Eu gosto de sentir sua mão na minha cintura pra eu sair do caminho. Eu gosto do pedaço de barriga que ele deixa aparecer quando deita. Eu gosto que ele pega na minha mão porque tá muito quente pra ficar abraçado. Eu gosto da sua mão. Eu gosto quando pergunto alguma coisa e ele move o mundo - e o Google - pra me responder minuciosamente. Eu gosto da paciência que ele tem pra me esperar escolher roupa e da pressa repentina que ele tem pra gente não perder o trem. Eu gosto de falar dele pra minha mãe, eu gosto de falar com a mãe dele. Eu gosto dos pais dele. Eu gosto do seu companheirismo, da sua companhia, do seu apoio silencioso, do seu beijo de manhã - e à noite, e à tarde - eu gosto do seu beijo, enfim. Eu gosto de imaginar como as coisas serão daqui pra frente, já que resolvi ficar com ele do meu lado. Eu gosto dele um monte, saca? Eu acho que a gente tem uma coisa legal - e até o amo por estar comigo assim tão na paz, sem reclamar das minhas loucuras como todo mundo, sem me mandar ficar quieta, sem me chamar de desequilibrada nem nada, que são coisas com as quais me acostumei.
Mas dizer "te amo", ainda que eu ame muitas coisas nele e mais coisas ainda em nós, - como tudo nosso pra mim é muito palpável, como não me enlouquece nem tira meu chão, como eu planejo ficar muito tempo com ele e esse amor de que falam não admite planejamento porque muda de ideia muito rápido - talvez porque o que eu sinto é muito inteiro e real, dizer "te amo", pra mim, seria estragar tudo. Dizer "te amo", pra mim, ainda é coisa pra quem sabe fazer.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Como não agir para obter sucesso
Porque me pedem pra ter paciência, e eu não tenho. Porque me pedem pra dar notícias, e eu não dou. Porque o calor já está chegando e eu não sei o que fazer com as minhas expectativas e medos e indecisões. Porque eu não leio um livro que queira de verdade há muito tempo. Porque minha bunda só diminui e minhas roupas já me encheram. Porque eu não tenho minha loirinha pra brigar pelo computador, nem meu violeiro pra acompanhar minhas cantorias solitárias. Porque eu não tenho as costas do meu pai pra cutucar no domingo à tarde. Porque no domingo à tarde eu trabalho ao invés de viver. Porque deu vontade de discutir com a minha mãe tentando convencer que eu tenho razão mesmo quando sei que não. Porque o sol saiu, porque tá chovendo, porque perdi meu brinco.
É isso, então... se eu desistir de novo e ficar com aquele pânico que eu sinto sempre que saio correndo, se eu depois ficar olhando o celular esperando a eutanásia telefônica que eu esperei a vida inteira. Porque tem coisas que não valem a pena, mesmo. E tem aquelas que valem, mas a gente nunca sabe a diferença.
Tem diferença? Entre o que foi dito e o que calou, aquelas tardes à toa com as amigas e os encontros marcados no sábado à noite, na sexta, na terça, só porque não há nada melhor pra se fazer. Só porque a gente se acostumou a respirar mesmo e a estar arrumado e a beber uma cerveja pra comemorar que a sexta chegou e fingir que não é só mais um fim de semana, que acaba numa segunda com a gente ainda ganhando o mesmo salário ridículo. Só porque todo mundo diz que você tem que entender porque é assim mesmo... e que as coisas se ajeitam depois, quem sabe se você prestar um concurso público? Quem sabe se tomar dois Dramins e tomar um banho e amanhã vai ser tudo bonito de novo. Porque é só uma noite ruim. Porque você não vai mesmo cair nesse abismo que tem por dentro e sabe disso, então já dá pra parar de fingir que você odeia tudo e que seu salto te dá o direito de andar olhando pra frente com cara de capa de revista.
Porque a vida ainda não me reensinou como parecer normal no meio de tanta gente fingindo entender essa coisa toda. Eu ainda não reaprendi a prender a respiração e ignorar o cheiro de podre que vem de tudo quanto é lugar, só pras pessoas pensarem que eu já consigo ficar dentro de mim sem me incomodar com a bagunça.
E se pra alguém é suficiente essa combinação de costume com ar poluído e espera e essa coisa de paciência porque sempre tem amanhã e depois. Se tem quem prefere um cigarro na janela, tudo bem. O mundo continua aí, mesmo que eu não possa vê-lo. Grande coisa. Grande coisa eu, grande coisa minhas conclusões e meu medo e a passagem que eu ainda posso trocar. Grande coisa isso de se ter paciência. E se tem gente que se cabe, se tem gente que consegue e ainda por cima tira foto e ri e tudo. Se tem gente que grita e isso basta, e tem outras gentes que calam e conseguem ficar assim e foda-se o resto das coisas. Se tem quem dá a mínima pras palavras e os significados todos que elas têm dependendo do contexto e dos motivos que há pra dizê-las. Se há quem esteja por aí vivendo e isso é tudo. Embora eu não consiga ainda... se tem, se tem é porque é possível... e ainda há esperança pra quem, assim como eu, continua não tendo cabimento.
É isso, então... se eu desistir de novo e ficar com aquele pânico que eu sinto sempre que saio correndo, se eu depois ficar olhando o celular esperando a eutanásia telefônica que eu esperei a vida inteira. Porque tem coisas que não valem a pena, mesmo. E tem aquelas que valem, mas a gente nunca sabe a diferença.
Tem diferença? Entre o que foi dito e o que calou, aquelas tardes à toa com as amigas e os encontros marcados no sábado à noite, na sexta, na terça, só porque não há nada melhor pra se fazer. Só porque a gente se acostumou a respirar mesmo e a estar arrumado e a beber uma cerveja pra comemorar que a sexta chegou e fingir que não é só mais um fim de semana, que acaba numa segunda com a gente ainda ganhando o mesmo salário ridículo. Só porque todo mundo diz que você tem que entender porque é assim mesmo... e que as coisas se ajeitam depois, quem sabe se você prestar um concurso público? Quem sabe se tomar dois Dramins e tomar um banho e amanhã vai ser tudo bonito de novo. Porque é só uma noite ruim. Porque você não vai mesmo cair nesse abismo que tem por dentro e sabe disso, então já dá pra parar de fingir que você odeia tudo e que seu salto te dá o direito de andar olhando pra frente com cara de capa de revista.
Porque a vida ainda não me reensinou como parecer normal no meio de tanta gente fingindo entender essa coisa toda. Eu ainda não reaprendi a prender a respiração e ignorar o cheiro de podre que vem de tudo quanto é lugar, só pras pessoas pensarem que eu já consigo ficar dentro de mim sem me incomodar com a bagunça.
E se pra alguém é suficiente essa combinação de costume com ar poluído e espera e essa coisa de paciência porque sempre tem amanhã e depois. Se tem quem prefere um cigarro na janela, tudo bem. O mundo continua aí, mesmo que eu não possa vê-lo. Grande coisa. Grande coisa eu, grande coisa minhas conclusões e meu medo e a passagem que eu ainda posso trocar. Grande coisa isso de se ter paciência. E se tem gente que se cabe, se tem gente que consegue e ainda por cima tira foto e ri e tudo. Se tem gente que grita e isso basta, e tem outras gentes que calam e conseguem ficar assim e foda-se o resto das coisas. Se tem quem dá a mínima pras palavras e os significados todos que elas têm dependendo do contexto e dos motivos que há pra dizê-las. Se há quem esteja por aí vivendo e isso é tudo. Embora eu não consiga ainda... se tem, se tem é porque é possível... e ainda há esperança pra quem, assim como eu, continua não tendo cabimento.
domingo, 13 de março de 2011
O que não mudou
Eu continuo não me achando digna da inveja alheia. E continuo odiando quem julga ser.
Acho, como já disse antes, que ninguém está nem aí pras minhas regras e pra maneira que eu escolhi pra olhar esse mundo maluco, embora também ache que muita gente teria menos problemas se usasse meu tão familiar "dane-se" com maior regularidade. Mas entendo que cada um escreve suas linhas como convém e que não vale a pena morrer sufocada, gritando como as coisas são menos complicadas se você olhar do lado certo e tentando convencer a população mundial a discutir menos por besteira.
O mundo é isso aí mesmo e eu acho, como também já disse, que ando me encaixando melhor nele de uns tempos pra cá. Pelo menos consigo conversar com as pessoas sem mencionar meus abismos e sem pensar neles. E isso deve ser uma coisa boa, de algum jeito.
Eu continuo cercada de coisas boas, ainda que haja muita coisa ruim. Eu não acho que o universo esteja todo o tempo tentando me fazer sofrer de algum jeito, o que combina com a minha decisão de não ficar sofrendo ainda que esses sejam os planos do universo pra mim. Aparentemente, eu e o universo andamos inclusive concordando sobre muita coisa, olha só.
Ainda acho que nós escolhemos a maior parte da nossa vida, então meus passos têm sido calculados pensando no que eu quero pros meus dias e isso é incrível, porque me faz sentir que finalmente sou capaz de decidir algo além da cor do meu cabelo. É claro que eu acho isso estranho, tratando-se de uma pessoa que julga que o fato de ter mais peito facilitaria as coisas pro seu lado.
Naturalmente eu acho que minhas regras são legais e boas e praticáveis e, ainda assim, continuo me achando desequilibrada e doente em excesso e, justamente por isso, continuo acreditando de verdade na impossibilidade de existir alguém doente o bastante pra sentir inveja de mim. E odiando quem se acha muito digno da inveja alheia.
Mãe, fique tranquila, eu ainda sou a mesma. Continuo sendo aborrecida e maluca e, como você pode ver, obviamente continuo sendo prolixa.
Acho, como já disse antes, que ninguém está nem aí pras minhas regras e pra maneira que eu escolhi pra olhar esse mundo maluco, embora também ache que muita gente teria menos problemas se usasse meu tão familiar "dane-se" com maior regularidade. Mas entendo que cada um escreve suas linhas como convém e que não vale a pena morrer sufocada, gritando como as coisas são menos complicadas se você olhar do lado certo e tentando convencer a população mundial a discutir menos por besteira.
O mundo é isso aí mesmo e eu acho, como também já disse, que ando me encaixando melhor nele de uns tempos pra cá. Pelo menos consigo conversar com as pessoas sem mencionar meus abismos e sem pensar neles. E isso deve ser uma coisa boa, de algum jeito.
Eu continuo cercada de coisas boas, ainda que haja muita coisa ruim. Eu não acho que o universo esteja todo o tempo tentando me fazer sofrer de algum jeito, o que combina com a minha decisão de não ficar sofrendo ainda que esses sejam os planos do universo pra mim. Aparentemente, eu e o universo andamos inclusive concordando sobre muita coisa, olha só.
Ainda acho que nós escolhemos a maior parte da nossa vida, então meus passos têm sido calculados pensando no que eu quero pros meus dias e isso é incrível, porque me faz sentir que finalmente sou capaz de decidir algo além da cor do meu cabelo. É claro que eu acho isso estranho, tratando-se de uma pessoa que julga que o fato de ter mais peito facilitaria as coisas pro seu lado.
Naturalmente eu acho que minhas regras são legais e boas e praticáveis e, ainda assim, continuo me achando desequilibrada e doente em excesso e, justamente por isso, continuo acreditando de verdade na impossibilidade de existir alguém doente o bastante pra sentir inveja de mim. E odiando quem se acha muito digno da inveja alheia.
Mãe, fique tranquila, eu ainda sou a mesma. Continuo sendo aborrecida e maluca e, como você pode ver, obviamente continuo sendo prolixa.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Soro
Há uma semana eu vi a porta da igreja aberta e entrei. A missa estava na metade e eu assisti até o fim. O castelhano do padre e a falta de um folheto só me permitiram responder em português.
Eu não ia à igreja de verdade desde os dezessete. Continuo não frequentando, mas estive ali e ouvi o que tinham a me dizer, e foi bom. No sermão o padre falava dos problemas e das dúvidas e dos infernos que enfrentamos todos; e falava da importância de estarmos próximos daqueles a quem amamos. "Devemos muita coisa aos que nos amam, porque nos ensinaram a viver como julgaram que seria melhor. E por isso sempre devemos estar perto deles, porque aqueles que nos amam nos deram muita vida".
Estou há dois meses e meio longe de casa. Longe dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus amigos e dos meus amigos-irmãos. Estou há dois meses e meio longe de tudo e, ainda assim, cada dia mais perto de mim.
Talvez estar ilhada de tudo que me é confortável e que eu conheço da vida inteira me faça sentir mais inteira. Talvez estar sozinha me faça dividir mais minhas impressões com os outros, ainda que não sejam meus ouvidos de sempre.
Justo eu, que sempre amei a solidão por achar que não me encaixava em lugar nenhum do mundo, e que por isso me fechava para ele e me escondia, agora estou tão sozinha que consigo deixar que o mundo me veja, e deixar que o mundo goste de mim, e deixar que alguém me abrace e ultrapasse os limites da minha margem de segurança. Acho que encontrei minha cura.
Eu sinto falta, claro, de fazer parte das conversas de domingo e de ter quem convidar pra almoçar no meio de uma semana chata e cansada. Mas acontece que a solidão forçada desses dias de inverno lá fora traz aqui pra dentro uma espécie de primavera, que deve ser a sensação boa de finalmente estar onde tenho que estar.
Eu duvido todo dia, eu tropeço todo dia. Todo dia eu tenho medo, eu tenho saudade, eu quero voltar. Todo dia eu desisto e começo do zero e tento manter minhas muralhas no lugar e, sabendo que não consigo mais, todo dia eu me inundo das coisas que temia e resolvo não duvidar daquelas em que sempre acreditei.
Solidão para curar meu vício em solidão.
Antídoto a partir do próprio veneno.
Já sou quase humana de novo.
Eu não ia à igreja de verdade desde os dezessete. Continuo não frequentando, mas estive ali e ouvi o que tinham a me dizer, e foi bom. No sermão o padre falava dos problemas e das dúvidas e dos infernos que enfrentamos todos; e falava da importância de estarmos próximos daqueles a quem amamos. "Devemos muita coisa aos que nos amam, porque nos ensinaram a viver como julgaram que seria melhor. E por isso sempre devemos estar perto deles, porque aqueles que nos amam nos deram muita vida".
Estou há dois meses e meio longe de casa. Longe dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus amigos e dos meus amigos-irmãos. Estou há dois meses e meio longe de tudo e, ainda assim, cada dia mais perto de mim.
Talvez estar ilhada de tudo que me é confortável e que eu conheço da vida inteira me faça sentir mais inteira. Talvez estar sozinha me faça dividir mais minhas impressões com os outros, ainda que não sejam meus ouvidos de sempre.
Justo eu, que sempre amei a solidão por achar que não me encaixava em lugar nenhum do mundo, e que por isso me fechava para ele e me escondia, agora estou tão sozinha que consigo deixar que o mundo me veja, e deixar que o mundo goste de mim, e deixar que alguém me abrace e ultrapasse os limites da minha margem de segurança. Acho que encontrei minha cura.
Eu sinto falta, claro, de fazer parte das conversas de domingo e de ter quem convidar pra almoçar no meio de uma semana chata e cansada. Mas acontece que a solidão forçada desses dias de inverno lá fora traz aqui pra dentro uma espécie de primavera, que deve ser a sensação boa de finalmente estar onde tenho que estar.
Eu duvido todo dia, eu tropeço todo dia. Todo dia eu tenho medo, eu tenho saudade, eu quero voltar. Todo dia eu desisto e começo do zero e tento manter minhas muralhas no lugar e, sabendo que não consigo mais, todo dia eu me inundo das coisas que temia e resolvo não duvidar daquelas em que sempre acreditei.
Solidão para curar meu vício em solidão.
Antídoto a partir do próprio veneno.
Já sou quase humana de novo.
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