Eu ouço o despertador e acordo. Você troca de roupa e põe tênis, passa seus mil cremes e eu sei que nunca vou conseguir ser tão vaidosa quanto você merece. Eu penso em levantar e escovar os dentes, porque sei que você vem me dar tchau e bom dia, mas até meu sono vence minha vaidade. E eu me desculpo.
Você faz piadas e canta e se esforça para me irritar ou me fazer sorrir e eu penso que nunca vou ser tão leve quanto você pensava. E me desculpo de novo.
A gente fala de coisas, lugares, pessoas e do que já foi. A gente se pergunta o que foi desse ou daquele, a gente fala mal, fala bem, não fala nada. A gente passa tempo demais sem falar e, embora eu finja que é normal assim, eu tenho um pouco de saudade de quando a gente falava do que seria.
Eu já soube me achar perfeita com o corpo que me deram, sem silicone e com esse rosto sempre com pontinhos vermelhos, mas acho que esqueci como se faz. Talvez porque eu não saiba ao certo quanto é suficiente pra você e porque, mesmo sabendo de tudo que eu posso fazer e como eu posso ser divertida e parceira e moleca, eu nunca lembro de ser assim com você. E, quando tento, o que consigo é só uma coisa estranha e patética, que faz parecer forçada a segurança que eu tinha, já que ela também sumiu de mim.
Aí me pergunto se isso é o que eu sentia quando era capaz de me apaixonar perdidamente. E se estou perdidamente apaixonada por você... porque eu não consigo mais raciocinar antes de dizer as coisas, e meu cinismo parece ter parado de surtir efeito ou eu é que desaprendi como usá-lo, pelo menos com você. Porque voltei a sentir ciúmes e às vezes até me sinto meio psicótica com essa coisa de não querer depender de você ou te atrapalhar e isso me parece desculpa para não gastar o que eu acho que a gente tem.
E, já que minhas teorias não estão mais funcionando, eu me desculpo porque não sei se sou o que você esperava e porque não sei mais dizer "foda-se", caso não seja. E, me desculpando tanto assim, sei que estou cada vez mais longe do que você esperava, e aí me desculpo de novo.
Eu me odeio tanto por ficar me desculpando e me odeio mais ainda porque sei que não sou assim... e mais ainda porque não consigo te mostrar nada do que eu tinha vontade sobre a vida e o jeito que eu escolhi pra olhar pra ela. E me odeio mais ainda porque você assiste televisão, trabalha, toma banho, usa o computador, cozinha e usa seus cremes e nunca, nunca mostra nada de você.
E eu me sinto mais maluca todo dia... e não sei se isso é impressão ou se eu finalmente sou como todo mundo. Eu sinto saudade porque me sentia tão bem sendo diferente deles. E ao mesmo tempo eu fico feliz e tenho vontade de pular no seu colo quando você chega mas, como não sei nunca quando vai ser demais pra você, sorrio amarelo e cínico e dou a entender que pra mim tanto faz.
Porque quando o buraco que eu tinha dentro começou a querer sarar, eu me senti meio vazia daquela falta toda... e agora não sei o que fazer com as minhas teorias, já que estou o tempo todo passando por cima delas. Como eu vou dar lição de moral se eu mesma não consigo seguir meus conselhos? Onde vou usar minhas frases feitas e citar meus autores, se ao invés de raciocinar eu agora ajo instintivamente?
É isso, esqueci como se racionaliza o mundo. Eu estava errada sobre quase tudo e agora preciso rever todo o meu manual de sobrevivência.
Porque pessoas sem buracos na alma não pensam, elas vivem. E eu acho isso perigoso demais, imagina!
Eu sei que você entende e já até sentiu igual, mas uma vez arrancaram meu coração e, quando devolveram, ele não batia mais por nada nem ninguém, e agora tenho medo de que voltar a bater seja mesmo o que falta pra ele morrer de vez... porque sei que isso me deixou gelada por dentro e por fora, e talvez daí viesse toda a minha maldita segurança em mim mesma.
Mas você chega em casa e não mostra nada de você, nunca, então ao invés de pular no seu colo - como eu gostaria de fazer - eu esqueço de ser eu mesma, divertida e moleca e parceira, e acabo sendo só uma coisa forçadamente gelada, um pouco pelas minhas teorias e um pouco pelas minhas experiências.
E, por mais maluco que possa parecer, como sempre é, acho mesmo que todas as teorias que tínhamos antes não estão servindo pra nada, já que eu não sou mais quem era e você é muito fechado pra gente manter nossas conversas bonitas e cheias de planos. Acho mesmo que nossas teorias não estão servindo pra nada no fim das contas mas, olha que coisa, também acho que somos mesmo muito bons na prática. Mas não posso segurar você, nem te convencer disso, porque eu continuo me achando estranha demais pra alguém acreditar nas minhas ideias. Então eu fico torcendo, cruzando de novo os dedos dos pés e respirando muitas vezes antes de dormir. Eu fico torcendo pra que - ainda que não seja o que a gente esperava - você não sinta vontade de sair correndo.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Sorrisos
Alguém se esqueceu de avisar para o mundo que esse negócio de felicidade não existe; ou, no mínimo, não da forma como ouvimos falar.
A grande maioria das pessoas não é bilionária, não tem uma casa na praia, carro do ano ou mesmo as contas em dia.
Noventa por cento da população mundial têm empregos com horários ou metas que devem ser cumpridos, saem de casa pela manhã reclamando porque está chovendo ou porque está fazendo sol, aguentam chefes aborrecidos e o trânsito da hora do rush. Isso não os faz tristes ou amargurados. Do contrário teríamos índices absurdos de suicídio em quase todos os lugares do mundo. E não é o que acontece.
A grande maioria das pessoas nunca chegou a conhecer sua metade da laranja. As que conheceram, provavelmente já estão com outras pessoas, mais reais e menos complicadas. O amor da sua vida é, possivelmente, alguém que discorda de você em quase todos os assuntos. Porque o amor é assim, não pensa. E, como amor por si só não consegue fazer niguém feliz, "amores da vida" costumam acabar mais rápido que os outros. Mas não vemos por aí muita gente se acabando de chorar por ter perdido o "amor de suas vidas".
Nem dinheiro, nem amor, trazem a felicidade plena.
Porque isso é uma grande mentira. Ninguém é feliz o tempo todo. O que nos faz felizes é a expectativa de coisas boas. A vontade de comprar aquele sapato, aquela casa, aquela viagem. A espera por uma mensagem, um e-mail, uma ligação, um sorriso. O que nos faz felizes, por mais paradoxal que possa parecer, é justamente procurar pela felicidade.
O que nos faz felizes é sentir-nos vivos, em busca de aventuras melhores e mais profundas, que nos mostrem como somos capazes de ir mais além do que acreditávamos. Estar em busca, em movimento, sentir nosso coração batendo de verdade, passar raspando, chegar em cima da hora, bater de frente, defender nossos pontos de vista e, acima de tudo, acreditar que um dia essa felicidade de que tanto ouvimos falar vai bater à nossa porta e dizer "E aí?! To a fim de passar o resto dos meus dias contigo, topas?".
Aí, um dia, enquanto você toma banho ou passeia com o cachorro, enquanto você espera na fila do banco ou lê um livro, enquanto você assoa o nariz gripado ou tira o sapato, você olha pra sua rotina chata e pras suas expectativas e se dá conta: a felicidade tá aí... e você dá um sorriso, mas finge que não vê, pra garantir que ela não vá embora.
Pelo menos é assim comigo. E ando sorrindo bastante.
A grande maioria das pessoas não é bilionária, não tem uma casa na praia, carro do ano ou mesmo as contas em dia.
Noventa por cento da população mundial têm empregos com horários ou metas que devem ser cumpridos, saem de casa pela manhã reclamando porque está chovendo ou porque está fazendo sol, aguentam chefes aborrecidos e o trânsito da hora do rush. Isso não os faz tristes ou amargurados. Do contrário teríamos índices absurdos de suicídio em quase todos os lugares do mundo. E não é o que acontece.
A grande maioria das pessoas nunca chegou a conhecer sua metade da laranja. As que conheceram, provavelmente já estão com outras pessoas, mais reais e menos complicadas. O amor da sua vida é, possivelmente, alguém que discorda de você em quase todos os assuntos. Porque o amor é assim, não pensa. E, como amor por si só não consegue fazer niguém feliz, "amores da vida" costumam acabar mais rápido que os outros. Mas não vemos por aí muita gente se acabando de chorar por ter perdido o "amor de suas vidas".
Nem dinheiro, nem amor, trazem a felicidade plena.
Porque isso é uma grande mentira. Ninguém é feliz o tempo todo. O que nos faz felizes é a expectativa de coisas boas. A vontade de comprar aquele sapato, aquela casa, aquela viagem. A espera por uma mensagem, um e-mail, uma ligação, um sorriso. O que nos faz felizes, por mais paradoxal que possa parecer, é justamente procurar pela felicidade.
O que nos faz felizes é sentir-nos vivos, em busca de aventuras melhores e mais profundas, que nos mostrem como somos capazes de ir mais além do que acreditávamos. Estar em busca, em movimento, sentir nosso coração batendo de verdade, passar raspando, chegar em cima da hora, bater de frente, defender nossos pontos de vista e, acima de tudo, acreditar que um dia essa felicidade de que tanto ouvimos falar vai bater à nossa porta e dizer "E aí?! To a fim de passar o resto dos meus dias contigo, topas?".
Aí, um dia, enquanto você toma banho ou passeia com o cachorro, enquanto você espera na fila do banco ou lê um livro, enquanto você assoa o nariz gripado ou tira o sapato, você olha pra sua rotina chata e pras suas expectativas e se dá conta: a felicidade tá aí... e você dá um sorriso, mas finge que não vê, pra garantir que ela não vá embora.
Pelo menos é assim comigo. E ando sorrindo bastante.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Adiante
"Não sou do tipo que procura e sai correndo quando encontra"
É do Paulo Coelho e é bem isso.
Eu me proíbo terminantemente de sair correndo das coisas que eu quis a vida toda.
Ninguém me disse que seria fácil, ninguém me garantiu que tudo ia dar certo o tempo todo. Eu sabia.
E eu me proíbo de me sentir mal só porque finalmente encontrei meus obstáculos.
Se tudo sempre deu certo e de repente tá foda, e de repente tá tenso, e de repente eu quero entrar no banho e chorar os mesmos litros d'água que o chuveiro derrubar, eu me proíbo.
Porque é injusto com os outros, e é injusto comigo. Não posso tirar meu direito de passar por essas fases todas, não posso tirar meu direito de saber como é lutar, de entender o que é superar, não posso tirar meu direito de reaprender a sofrer.
Se eu passei anos tentando reanimar meus batimentos cardíacos, não posso agora ficar com medo das arritmias. Não posso agora ficar com medo da oscilação, porque eu sabia que ela viria.
Você não queria tanto? Então toma!
Se tem alguém que me abraça e eu não tenho impulsos de dizer "olha, eu sou louca e você precisa saber", e eu não olho pro outro lado e nem tenho que fingir que estou à vontade sem estar. Se tem alguém que me abraça e eu não sinto vontade de sair correndo três dias e três noites sem olhar pra trás, então isso deve ser alguma coisa.
E então eu me proíbo de sair correndo! Mesmo que haja muito mais coisas por saber. Mesmo que haja muito mais ontem do que hoje, de todos os lados.
Se eu sentia tanta falta de problemas que fossem meus e não dos outros, de resolver minhas próprias encrencas e de arriscar minha própria pele e de estar exposta, pronto. Estou aqui agora, onde e como sempre quis estar.
E por mais que o ontem pareça vasto olhando daqui, e por mais que às vezes esse passado me toque de forma dolorosa, o presente não me parece pouco. E, mesmo que eu esteja errada sobre isso, eu também vim para correr meus riscos.
É do Paulo Coelho e é bem isso.
Eu me proíbo terminantemente de sair correndo das coisas que eu quis a vida toda.
Ninguém me disse que seria fácil, ninguém me garantiu que tudo ia dar certo o tempo todo. Eu sabia.
E eu me proíbo de me sentir mal só porque finalmente encontrei meus obstáculos.
Se tudo sempre deu certo e de repente tá foda, e de repente tá tenso, e de repente eu quero entrar no banho e chorar os mesmos litros d'água que o chuveiro derrubar, eu me proíbo.
Porque é injusto com os outros, e é injusto comigo. Não posso tirar meu direito de passar por essas fases todas, não posso tirar meu direito de saber como é lutar, de entender o que é superar, não posso tirar meu direito de reaprender a sofrer.
Se eu passei anos tentando reanimar meus batimentos cardíacos, não posso agora ficar com medo das arritmias. Não posso agora ficar com medo da oscilação, porque eu sabia que ela viria.
Você não queria tanto? Então toma!
Se tem alguém que me abraça e eu não tenho impulsos de dizer "olha, eu sou louca e você precisa saber", e eu não olho pro outro lado e nem tenho que fingir que estou à vontade sem estar. Se tem alguém que me abraça e eu não sinto vontade de sair correndo três dias e três noites sem olhar pra trás, então isso deve ser alguma coisa.
E então eu me proíbo de sair correndo! Mesmo que haja muito mais coisas por saber. Mesmo que haja muito mais ontem do que hoje, de todos os lados.
Se eu sentia tanta falta de problemas que fossem meus e não dos outros, de resolver minhas próprias encrencas e de arriscar minha própria pele e de estar exposta, pronto. Estou aqui agora, onde e como sempre quis estar.
E por mais que o ontem pareça vasto olhando daqui, e por mais que às vezes esse passado me toque de forma dolorosa, o presente não me parece pouco. E, mesmo que eu esteja errada sobre isso, eu também vim para correr meus riscos.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Terceira Lei de Newton
Quando eu parei de agir como vítima do mundo, o mundo parou de me tratar como vítima também.
Mudar as atitudes das outras pessoas não diminui em nada o próprio sofrimento. Só adia.
Psicólogos e psiquiatras ganham rios de dinheiro para nos dizer apenas isso: mude de atitude diante da vida, e a vida mudará de atitude diante de você.
Aí reclamamos, que não precisamos pagar tanto apenas para ouvir que estamos sempe errados, no final. Mas continuamos pagando. E, quando isso não dá resultado, então passamos o resto de nossos dias lamentando porque as outras pessoas não são como esperávamos.
E nós? Somos o que queríamos ser? Chegamos ao menos perto de fazer o que desejávamos? Conseguimos nos sentir minimamente responsáveis pelos nossos erros?
O que dizem de nós, o que esperam de nós, o que sentem por nós... julgamos uma foto bonita pelo contexto, pelo momento, pelo sentimento nela contido ou pelo modo como saímos nela?
Pode-se passar toda uma vida correndo atrás de algo que não chega, e daí? Sofre mais quem tem esperança ou quem não espera nada?
Ciúmes, maldições, azar, problemas financeiros, emocionais, brigas, desentendimentos, acidentes, traições... traições.
Somos mesmo vítimas do mundo ou é simplesmente mais fácil culpar o desconhecido pelo mal que nos atinge?
Agimos mesmo de acordo com o que acreditamos ou fingimos ser algo que não somos? Reconhecemos nossos erros ou apenas apontamos os erros alheios, sentindo uma mágoa imensa pelo modo como eles nos afetaram?
Eu parei de me sentir vítima do mundo, para entender que sou vítima de mim mesma, das minhas escolhas, dos meus passos. Não posso esperar dos outros mais do que posso dar a eles. Não posso esperar dos outros mais do que eles podem me dar. Ainda que seus erros me machuquem, ainda que o grito trave na garganta, ainda que eu caia, ainda que eu sinta, ainda que eu queira ferir de volta. Não sou a vítima, nem o vingador; escolho meu caminho e meus aliados. Se eles não forem o bastante para mim, ou eu não for o bastante para eles, não posso culpá-los. Eu sou a dona da minha história; e ela será tão colorida e cheirosa e bonita e agradável quanto eu quiser que ela seja.
Não os outros. Não o mundo. Deixo que eles sejam responsáveis apenas por eles mesmos, por seus próprios atos. Como isso vai me afetar, é um problema todo meu. Tenho é que prestar atenção em como o que parte de mim afeta os outros.
Eu não sou a vítima, sou a escritora.
Bem simples.
Mudar as atitudes das outras pessoas não diminui em nada o próprio sofrimento. Só adia.
Psicólogos e psiquiatras ganham rios de dinheiro para nos dizer apenas isso: mude de atitude diante da vida, e a vida mudará de atitude diante de você.
Aí reclamamos, que não precisamos pagar tanto apenas para ouvir que estamos sempe errados, no final. Mas continuamos pagando. E, quando isso não dá resultado, então passamos o resto de nossos dias lamentando porque as outras pessoas não são como esperávamos.
E nós? Somos o que queríamos ser? Chegamos ao menos perto de fazer o que desejávamos? Conseguimos nos sentir minimamente responsáveis pelos nossos erros?
O que dizem de nós, o que esperam de nós, o que sentem por nós... julgamos uma foto bonita pelo contexto, pelo momento, pelo sentimento nela contido ou pelo modo como saímos nela?
Pode-se passar toda uma vida correndo atrás de algo que não chega, e daí? Sofre mais quem tem esperança ou quem não espera nada?
Ciúmes, maldições, azar, problemas financeiros, emocionais, brigas, desentendimentos, acidentes, traições... traições.
Somos mesmo vítimas do mundo ou é simplesmente mais fácil culpar o desconhecido pelo mal que nos atinge?
Agimos mesmo de acordo com o que acreditamos ou fingimos ser algo que não somos? Reconhecemos nossos erros ou apenas apontamos os erros alheios, sentindo uma mágoa imensa pelo modo como eles nos afetaram?
Eu parei de me sentir vítima do mundo, para entender que sou vítima de mim mesma, das minhas escolhas, dos meus passos. Não posso esperar dos outros mais do que posso dar a eles. Não posso esperar dos outros mais do que eles podem me dar. Ainda que seus erros me machuquem, ainda que o grito trave na garganta, ainda que eu caia, ainda que eu sinta, ainda que eu queira ferir de volta. Não sou a vítima, nem o vingador; escolho meu caminho e meus aliados. Se eles não forem o bastante para mim, ou eu não for o bastante para eles, não posso culpá-los. Eu sou a dona da minha história; e ela será tão colorida e cheirosa e bonita e agradável quanto eu quiser que ela seja.
Não os outros. Não o mundo. Deixo que eles sejam responsáveis apenas por eles mesmos, por seus próprios atos. Como isso vai me afetar, é um problema todo meu. Tenho é que prestar atenção em como o que parte de mim afeta os outros.
Eu não sou a vítima, sou a escritora.
Bem simples.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Pedaços
Lá se foi meu cabelo.
Eu fiquei tantos anos esperando que ele batesse no quadril, tantos anos planejando o que eu faria quando ele fosse enorme mesmo. E quando chegou eu fui lá e cortei. E cortei um monte de coisas e até pessoas.
Aí quando tirei as raízes de tudo e clareei o cabelo e até a alma, resolvi plantar coisas novas... que agora crescem também, e vão tomando suas próprias formas a cada dia. É bom.
E meu pescoço anda tomando mais sol também. Eu inteira ando tomando mais sol. E nem estou detestando tanto assim. Acho que, de repente, pode ser sintoma disso que falam que acontece quando você sabe que tem andado pelo caminho certo.
E eu acho que tenho feito isso mesmo, por mais que isso me soe dizer que poxa, eu sei onde estou e isso é estranhíssimo pra uma pessoa que mal aprendeu o próprio nome até hoje.
Aquelas ânsias de que eu sempre falo têm sido mais amenas - quer dizer, elas não passaram, mas agora me dão por outros motivos, que são até bons, no fundo - e nem estou abafando tantos gritos quanto fiz a vida toda. A respiração também está falhando menos.
Depois que eu fui lá e cortei as pontas duplas do meu cabelo, a vida foi lá e cortou as pontas duplas das minhas escolhas, o que quer dizer que finalmente consigo ver algumas certezas se aproximando, mesmo que ainda não possa agarrá-las.
Ninguém se surpreende quando eu digo pra onde vou. Ninguém ri e nem acha maluco.
Acho engraçado, porque eu mesma acho maluco demais, mas sei lá... de repente eu nem estou mais tão fora da realidade assim e o mundo é mesmo bem mais maluco que eu.
No fundo, todo mundo sempre soube.
E eu, mesmo achando maluco, nunca estive tão segura de outra coisa na vida! No fundo, eu sempre soube mais que todo mundo. No fundo, eu sei dos bons ventos que me levam e pra onde eles me levam.
Eu já saí do meu emprego, já fiz minha lista de bagagem, já tenho os documentos todos e máquina fotográfica e vontade e já até chorei também.
Falta tão pouco pra tudo que eu queria que eu nem sei se choro mais ou me belisco.
E isso é bom, embora eu saiba de todas as renúncias embutidas nessa coisa toda, embora eu entenda de todos os pedaços meus que estão ficando pra trás.
É que sinto de algum jeito que isso tudo é pra pegar o melhor deles.
Eu fiquei tantos anos esperando que ele batesse no quadril, tantos anos planejando o que eu faria quando ele fosse enorme mesmo. E quando chegou eu fui lá e cortei. E cortei um monte de coisas e até pessoas.
Aí quando tirei as raízes de tudo e clareei o cabelo e até a alma, resolvi plantar coisas novas... que agora crescem também, e vão tomando suas próprias formas a cada dia. É bom.
E meu pescoço anda tomando mais sol também. Eu inteira ando tomando mais sol. E nem estou detestando tanto assim. Acho que, de repente, pode ser sintoma disso que falam que acontece quando você sabe que tem andado pelo caminho certo.
E eu acho que tenho feito isso mesmo, por mais que isso me soe dizer que poxa, eu sei onde estou e isso é estranhíssimo pra uma pessoa que mal aprendeu o próprio nome até hoje.
Aquelas ânsias de que eu sempre falo têm sido mais amenas - quer dizer, elas não passaram, mas agora me dão por outros motivos, que são até bons, no fundo - e nem estou abafando tantos gritos quanto fiz a vida toda. A respiração também está falhando menos.
Depois que eu fui lá e cortei as pontas duplas do meu cabelo, a vida foi lá e cortou as pontas duplas das minhas escolhas, o que quer dizer que finalmente consigo ver algumas certezas se aproximando, mesmo que ainda não possa agarrá-las.
Ninguém se surpreende quando eu digo pra onde vou. Ninguém ri e nem acha maluco.
Acho engraçado, porque eu mesma acho maluco demais, mas sei lá... de repente eu nem estou mais tão fora da realidade assim e o mundo é mesmo bem mais maluco que eu.
No fundo, todo mundo sempre soube.
E eu, mesmo achando maluco, nunca estive tão segura de outra coisa na vida! No fundo, eu sempre soube mais que todo mundo. No fundo, eu sei dos bons ventos que me levam e pra onde eles me levam.
Eu já saí do meu emprego, já fiz minha lista de bagagem, já tenho os documentos todos e máquina fotográfica e vontade e já até chorei também.
Falta tão pouco pra tudo que eu queria que eu nem sei se choro mais ou me belisco.
E isso é bom, embora eu saiba de todas as renúncias embutidas nessa coisa toda, embora eu entenda de todos os pedaços meus que estão ficando pra trás.
É que sinto de algum jeito que isso tudo é pra pegar o melhor deles.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Já antes
Eu sinto saudade de você, sabe?!
Saudade quando a gente não se fala. Saudade quando acontece uma coisa muito sem cabimento de alegria ou de tristeza e você não está do meu lado. Saudade quando eu quero te mostrar a roupa nova que eu comprei ou o bolo novo que aprendi a fazer.
É saudade de saudade mesmo. Daquelas que esmagam o coração e parece que a gente vai chorar só de pensar. Parece saudade de verdade mesmo.
É saudade dos toques, dos cheiros, das nossas risadas. Saudade de te abraçar ao chegar em casa, de rir no teu peito das besteiras que a gente fala, saudade de me arrumar enquanto você me espera pra sair, de estourar pipoca pra hora do jogo, de te fazer massagem pra dor nas costas, de acordar sem tem dormido.
Eu sinto saudade de você.
E não vou dizer que não é bem estranho. Saudade a gente sente de coisas que a gente teve. E o que não? E de você?
Eu sinto saudade de você, como se fosse algo que tivesse sido meu e não é mais.
Ontem eu estava deitada, sabe, me concentrando na respiração pra dormir como aprendi a fazer sozinha pra não perder horas e horas de sono toda noite. E aí eu fico muito quieta pensando no ar que entra e sai do meu nariz e é como se ele entorpecesse o resto de mim e eu presto tanta atenção nele que é sempre nessa parte que eu durmo.
Mas aí ontem você estava lá. Ficava rindo do quanto eu sou estranha às vezes e do meu dedinho do pé cruzado pra me salvar de alguma coisa. Ficava falando bobagem pra eu dar risada e aí tirar sarro porque minha risada é escandalosa. Ficava me fazendo carinho no cabelo e explicando porque é que eu não tinha que ser tão ansiosa e nervosa e maluca. Você é leve mesmo.
E aí me deu tanta saudade... e não dava pra dormir com aquilo tudo, eu fico feliz demais com essa saudade toda, acorda muita coisa que eu tinha esquecido como era e aí é que eu não durmo.
Hoje eu acordei com o rosto inchado de um choro que eu não tive durante a noite. Eu não dormi e nem chorei, fiquei olhando pela janela e pensando em como a nossa saudade é a pior e a melhor do mundo todo. Eu acordei com o rosto inchado de sorrir demais.
Eu me acostumei com a sua presença nos meus dias e nas minhas noites.
Eu nunca vou te perguntar onde você estava. Eu fico muito feliz quando é aqui que você está. Eu sinto saudade e é uma saudade de coisas que ainda serão. Você me disse isso um dia e eu entendi na mesma hora que era isso essa coisa que eu sinto.
Eu fico comendo e trabalhando feito louca e me afogando em Coca-Cola e achando tudo lindo e depois tudo feio, eu fico pensando e falando e achando que to ficando louca mas, no fundo mesmo, é só saudade de você.
Saudade quando a gente não se fala. Saudade quando acontece uma coisa muito sem cabimento de alegria ou de tristeza e você não está do meu lado. Saudade quando eu quero te mostrar a roupa nova que eu comprei ou o bolo novo que aprendi a fazer.
É saudade de saudade mesmo. Daquelas que esmagam o coração e parece que a gente vai chorar só de pensar. Parece saudade de verdade mesmo.
É saudade dos toques, dos cheiros, das nossas risadas. Saudade de te abraçar ao chegar em casa, de rir no teu peito das besteiras que a gente fala, saudade de me arrumar enquanto você me espera pra sair, de estourar pipoca pra hora do jogo, de te fazer massagem pra dor nas costas, de acordar sem tem dormido.
Eu sinto saudade de você.
E não vou dizer que não é bem estranho. Saudade a gente sente de coisas que a gente teve. E o que não? E de você?
Eu sinto saudade de você, como se fosse algo que tivesse sido meu e não é mais.
Ontem eu estava deitada, sabe, me concentrando na respiração pra dormir como aprendi a fazer sozinha pra não perder horas e horas de sono toda noite. E aí eu fico muito quieta pensando no ar que entra e sai do meu nariz e é como se ele entorpecesse o resto de mim e eu presto tanta atenção nele que é sempre nessa parte que eu durmo.
Mas aí ontem você estava lá. Ficava rindo do quanto eu sou estranha às vezes e do meu dedinho do pé cruzado pra me salvar de alguma coisa. Ficava falando bobagem pra eu dar risada e aí tirar sarro porque minha risada é escandalosa. Ficava me fazendo carinho no cabelo e explicando porque é que eu não tinha que ser tão ansiosa e nervosa e maluca. Você é leve mesmo.
E aí me deu tanta saudade... e não dava pra dormir com aquilo tudo, eu fico feliz demais com essa saudade toda, acorda muita coisa que eu tinha esquecido como era e aí é que eu não durmo.
Hoje eu acordei com o rosto inchado de um choro que eu não tive durante a noite. Eu não dormi e nem chorei, fiquei olhando pela janela e pensando em como a nossa saudade é a pior e a melhor do mundo todo. Eu acordei com o rosto inchado de sorrir demais.
Eu me acostumei com a sua presença nos meus dias e nas minhas noites.
Eu nunca vou te perguntar onde você estava. Eu fico muito feliz quando é aqui que você está. Eu sinto saudade e é uma saudade de coisas que ainda serão. Você me disse isso um dia e eu entendi na mesma hora que era isso essa coisa que eu sinto.
Eu fico comendo e trabalhando feito louca e me afogando em Coca-Cola e achando tudo lindo e depois tudo feio, eu fico pensando e falando e achando que to ficando louca mas, no fundo mesmo, é só saudade de você.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Verdades
Vieram me perguntar, como sempre faziam, o que é que deu no fim das contas. E eu tive que responder, leve e sorridente e certa que, no fim das contas, não deu nada.
Levei um susto mesmo, com a minha resposta, e fiquei até pensando onde raios foi parar aquilo tudo... mas a minha alma só sorriu pra mim como quem diz "bobinha".
Eu sorri pra ela de volta. Sou bobinha mesmo.
Disseram que disseram que eu disse qualquer coisa. Eu ouvi, abaixei a cabeça e respondi: "acreditem no que se parecer mais com o que vocês pensam".
"Mas é verdade?" - Eu só sorri, sem responder. Pouco importa que não fosse, pensem o que quiserem. Todo mundo é livre e não sou eu que vou mentir nem desmentir nada nem ninguém. Deixa acharem isso ou aquilo.
Depois disseram que alguém disse que ouviu dizer e viu e tinha como provar e coisa e tal, mas sabe... e daí? Não ia adiantar eu ficar falando o contrário, então só disse: "bem, cada um tem suas verdades, né..."
E é isso aí mesmo. Foi. Ninguém tem que ficar falando ou perguntando ou querendo saber, chega. Quem quiser se ocupar de contar as histórias, que tenha sorte. Cada um tem suas verdades, mesmo, e não adianta eu ficar debatendo e discutindo. Quem pergunta normalmente é porque já formou sua opinião. E como as verdades são objetos individuais, cada um sabe como é que prova a sua e, quem quiser provar, tudo bem.
Eu cansei de me deixar julgar e acreditar no que dizem de mim mesma. Eu me conheço bem demais pra aceitar outro juiz além de mim.
E daí se quiserem falar? E daí se quiserem bater? E daí se quiserem achar e concluir e pensar seja lá o que for?
Eu tenho a mim e não me interessa que alguém pense ou saiba ou tenha ouvido ou consiga provar outra coisa, eu sei muito bem qual é a minha verdade.
Ela é simples, pura, exata, leve...
E daí se quiserem achar outra coisa?
Levei um susto mesmo, com a minha resposta, e fiquei até pensando onde raios foi parar aquilo tudo... mas a minha alma só sorriu pra mim como quem diz "bobinha".
Eu sorri pra ela de volta. Sou bobinha mesmo.
Disseram que disseram que eu disse qualquer coisa. Eu ouvi, abaixei a cabeça e respondi: "acreditem no que se parecer mais com o que vocês pensam".
"Mas é verdade?" - Eu só sorri, sem responder. Pouco importa que não fosse, pensem o que quiserem. Todo mundo é livre e não sou eu que vou mentir nem desmentir nada nem ninguém. Deixa acharem isso ou aquilo.
Depois disseram que alguém disse que ouviu dizer e viu e tinha como provar e coisa e tal, mas sabe... e daí? Não ia adiantar eu ficar falando o contrário, então só disse: "bem, cada um tem suas verdades, né..."
E é isso aí mesmo. Foi. Ninguém tem que ficar falando ou perguntando ou querendo saber, chega. Quem quiser se ocupar de contar as histórias, que tenha sorte. Cada um tem suas verdades, mesmo, e não adianta eu ficar debatendo e discutindo. Quem pergunta normalmente é porque já formou sua opinião. E como as verdades são objetos individuais, cada um sabe como é que prova a sua e, quem quiser provar, tudo bem.
Eu cansei de me deixar julgar e acreditar no que dizem de mim mesma. Eu me conheço bem demais pra aceitar outro juiz além de mim.
E daí se quiserem falar? E daí se quiserem bater? E daí se quiserem achar e concluir e pensar seja lá o que for?
Eu tenho a mim e não me interessa que alguém pense ou saiba ou tenha ouvido ou consiga provar outra coisa, eu sei muito bem qual é a minha verdade.
Ela é simples, pura, exata, leve...
E daí se quiserem achar outra coisa?
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